NOS CINEMAS

Homem-Aranha: De Volta ao Lar

EM EXIBIÇÃO NOS CINEMAS
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Homem-Aranha: De Volta ao Lar

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Em agosto de 1962, na décima quinta (e última) edição da revista Amazing Fantasy surgiu um novo super-herói que acabaria fazendo história: O Homem-Aranha! Mas de onde surgiu esta personagem? Como foi o seu processo de criação? Muitos detalhes estão obscuros até hoje, mas sabemos que foi essencialmente produto da criatividade de três pessoas; três monstros sagrados dos quadrinhos: Stan Lee, Jack Kirby e Steve Ditko.

Stan Lee, ou melhor, Stanley Martin Lieber, era, naquela altura, o editor-chefe e principal escritor da Marvel Comics. Sobrecarregado de trabalho, bolou um método de escrever quadrinhos rápido e interessante: ele escrevia o roteiro básico da história, normalmente apenas uma ou duas páginas datilografadas. Baseado nestas poucas linhas, o ilustrador desenhava toda a revista. Por fim, o lápis chegava às mãos de Lee, que, então, adicionava os diálogos. Este método, que colocava a toda estruturação das histórias nas mãos dos desenhistas, rendeu mais tarde inúmeros questionamentos sobre qual teria sido a real participação de do então editor-chefe na criação das personagens da Marvel Comics. Jack Kirby – como ficou conhecido Jacob Kurtzberg – era o principal ilustrador de super-heróis da Marvel e foi, a princípio, o encarregado de desenhar o Homem-Aranha. Porém, embora tenha participado do desenvolvimento inicial do Escalador de Paredes, ele nunca chegou a ser desenhista regular do herói.

Steve Ditko era o principal desenhista de tramas de mistério e suspense da Marvel. Pouco afeito a super-heróis, acabou sendo o primeiro e mais importante desenhista do Homem-Aranha. Além de ser um bom ilustrador, ele era um escritor de talento e – ao contrário de Kirby – chegou a ser creditado como co-roteirista em diversas das histórias que fez em parceria com Stan Lee. Mas qual foi a participação de cada um na criação da personagem? Bem, todos eles já deram suas versões para os acontecimentos e, a partir delas, tentaremos montar o quebra-cabeça que é a verdadeira história do nascimento do Homem-Aranha. Segundo Stan Lee, o Homem-Aranha foi baseado – ao menos em nome – na personagem The Spider (O Aranha), protagonista de vários contos baratos das revistas pulps que Lee havia lido ao longo de sua infância. À exceção do nome, porém, o violento justiceiro Spider não partilha qualquer outra semelhança com seu quase xará. O tema Homem-Animal para denominar um super-herói também não era nenhuma novidade, tendo sido usado em personagens como o clássico Batman e até em outra co-criação de Stan Lee da época, o Homem-Formiga.

Pouco depois de ter idealizado o personagem, Lee teve uma longa discussão com o dono da Marvel à época, Martin Goodman, que não aceitava um herói baseado em uma aranha porque as pessoas detestam aranhas! Lee, com sua conhecida lábia, convenceu-o a publicar uma história-piloto na revista Amazing Adult Fantasy – nome de Amazing Fantasy até o número 14 -, que estava prestes a ser cancelada. Amazing Adult Fantasy era uma das revistas de mistério/suspense da Marvel, desenhada por Ditko. No entanto, Kirby, por sua experiência com super-heróis, foi o escolhido para dar forma ao futuro astro. Segundo Lee, sua idéia era a de que a personagem fosse um adolescente comum e não o tradicional herói imponente e musculoso. Entretanto, ao ver as primeiras páginas de Kirby, Lee deparou-se com um novo Capitão América. Não era bem o que ele esperava! Foi então que decidiu chamar Steve Ditko, mais acostumado a retratar o mundo real do que o épico Kirby. Este, porém, ainda desenhou a capa da revista de estréia do personagem. Lee não recorda se o distintivo uniforme do personagem fora criado por Kirby ou Ditko, nem maiores detalhes sobre seu surgimento. Não custa lembrar que a memória de Lee é proverbialmente fraca, uma vez ele chamou Bruce Banner (o Hulk) de Bob Banner em uma edição inteira do Quarteto Fantástico!

Kirby, porém, questionava diversos detalhes da história de Lee. Segundo ele, o herói era, na verdade, uma reciclagem de Silver Spider (Aranha Prateada), personagem que criara com seu antigo parceiro Joe Simon em 1953, mas fora rejeitado pela editora Harvey Comics (na época, o conceito de super-heróis estava em baixa). A idéia, seis anos depois, acabou sendo reciclada para a editora Archie Comics como The Fly (no Brasil, Mosca Humana). Vale mencionar que Simon afirma que Silver Spider fora criado originalmente como Spiderman (sem o hífen do Spider-Man da Marvel) e que os esboços (os mesmos dados por Kirby a Ditko) terias sido desenhado por C.C. Beck (desenhista original do Capitão Marvel da Fawcett!). Há problemas na versão de Simon, já que Jack Kirby dificilmente conseguiria fazer desenhos de Beck passarem por seus (os dois artistas eram tão diferentes quanto óleo e água) e os esboços usados por Simon não condizem com a versão que Ditko dá para o uniforme Kirbyano do personagem. Afora isso, Kirby alegava ter sido o criador do traje do aracnídeo, embora diversos quadrinhistas questionem essa afirmação, haja vista a roupa não lembrar nenhuma das milhares de vestimentas de super-herói criadas por ele, mas sim as poucas criadas por Ditko. Insistia também que deixou a série por estar com excesso de trabalho – na época, era o responsável por séries como Quarteto Fantástico, Hulk, Thor, Homem-Formiga e numerosas HQs de monstros da Marvel -, porém teria desenhado algumas páginas que serviram de base para a versão de Ditko.

Várias das afirmações deste notável autor são válidas, mas sua memória costumava ser tão deficiente quanto a de Lee…

A solução de tais mistérios ficaria por conta do recluso Steve Ditko. Avesso a entrevistas, ele se absteve de comentar sobre o assunto durante anos, mas um artigo publicado em 1990 lançou nova luz sobre o assunto. Ditko confirma que Kirby foi efetivamente o primeiro ilustrador designado para a revista, mas saiu por motivos ignorados. Conta ainda que o conceito original era o de um garoto que adquire superpoderes (e corpo de adulto!) graças a uma espécie de anel mágico. Fora um desenho abstrato no peito, nada no traje do herói criado por Kirby lembrava uma aranha embora, ironicamente, guardasse semelhanças com o visual do Capitão América (o que estaria de acordo com a versão de Lee). O protótipo de herói carregava uma arma de teia na cintura, bem diferente dos discretos lançadores de teia que Ditko propôs. O visual de Kirby, baseado em um desenho de Ditko, pode ser visto em outra seção deste livro e é realmente um design muito mais Kirbyano do que o uniforme tradicional do Homem-Aranha. Nas páginas desenhadas por Kirby (ou C.C. Beck, de acordo com Joe Simon) e descartadas por Ditko, o aventureiro, criado por seus tios idosos como o Homem-Aranha que nós conhecemos, é vizinho de uma espécie de cientista maluco (!) que, subentende-se, teria sido o responsável pelo surgimento de seus poderes. Como mencionado acima, Ditko ignorou toda essa versão. Tendo retornado, segundo suas próprias palavras, ao roteiro original de Lee, ele refez a história, eliminando idéias como a do cientista e do anel mágico, e criando o uniforme que nós conhecemos hoje. Uma mudança significativa e que, provavelmente, resultou em uma personagem bem mais interessante do que a versão de Lee e Kirby.

Ditko também desenhou uma capa para a revista Amazing Fantasy 15, que acabou sendo rejeitada por Lee e, ironicamente, redesenhada por Kirby. Assim, este acabou sendo o capista da edição. Embora Amazing Fantasy fosse cancelada após essa edição, o herói atraiu interesse suficiente para ganhar um título próprio, Amazing Spider-Man, que seria co-escrito por Lee e Ditko e desenhado por este último até sua saída da Marvel; sem a participação de Kirby, a essa altura já bastante atarefado com outras personagens. Como então definir quem foram os verdadeiros criadores do Escalador de Paredes? Steve Ditko é quem oferece a versão mais sólida, mas ele ignora quem criou o nome Homem-Aranha e as razões pelas quais Kirby não foi o desenhista do título. No entanto, é inquestionável que ele criou todo o visual do herói e boa parte dos conceitos da série. Stan Lee foi, sem qualquer sombra de dúvida, o escritor dos marcantes diálogos da série e teve, no mínimo, uma grande participação no roteiro de suas primeiras histórias. E Jack Kirby? Embora o Rei tenha tido uma importância imensurável na criação de maior parte dos astros da Marvel, sua participação na criação do Aracnídeo é muito pequena. Mesmo considerando que o conceito original tenha realmente sido baseado no Silver Spider que ele fez com Simon, ele foi transformado por Lee e, principalmente, Ditko em algo bastante diferente. E é esta a versão que povoa a imaginação dos leitores há cinquenta anos. A de Stan Lee e Steve Ditko.

Todo texto reproduzido aqui nessa página é de autoria de Pedro Hunter e assim como nós do THBR, os créditos devem ser dados ao autor.